22 February 2019

Episódio 16 | A Estrada para Admiração | Ou: A vida encontra um caminho

 "Hoje é o dia. Estás pronto? Estamos todos?"





 Um homem muito sábio, o tio de todos nós, disse-me uma vez algo que eu já sabia: " não relembres a uma mulher como foi o parto". Elas lembram-se de como lhes custou, mas há hormonas que fazem esquecer naturalmente uma boa parte de como foi. Segundo aprendi em Biologia, a ideia é não traumatizar, é quererem passar pelo processo outra vez (à excepção da parte dos sogros). Não é que só se lembrem da parte em que receberam flores, mas o corpo tenta ver o lado mais positivo fazendo pensar mais como foi ter o bebé no colo e menos como foi a enorme vontade de dizer asneiras. Tudo o que as hormonas do homem fazem é esquecer de quanto pagou para deixar o carro no parque.

 Mas eu tenho que falar de todo o processo. Preciso de escrever como custou pois preciso que o mundo saiba como foi a minha namorada.

 Começou por ser uma terça-feira como as outras. Portugal estava alegre por ser campeão e os taxistas aprendiam a competir com a Uber. Em Lisboa, ainda não existiam 50 marcas de distribuição de comida e ainda não existiam 70 marcas de obstáculos no passeio para pessoas com limitações de locomoção, vulgarmente apelidados de trotinetes eléctricas. Os Hotéis já se concretizavam e as pessoas iam começando a ser  despejadas aos poucos. O maior caos era o aparecimento de adolescentes zombificados no meio da estrada por tentarem apanhar um peixe vermelho e uma pedra com braços no Pokémon Go, a mais recente novidade. Este era o Portugal que iria conhecer a minha filha e Lisboa estava no início das suas grandes mudanças. 



 De mala feita, saímos de casa, sem chatice de ninguém, em rumo para o palco da vida.

 E isso era tudo o que podíamos querer. 

 Paz.

 Em toda a nossa relação, foi a primeira vez que eu quis ir de táxi e ela, a namorada, de metro. O exercício fazia-lhe bem e podia facilitar o nascimento. Infelizmente, o bebé era teimoso, por isso serviu para cansar apenas. Mas foi um passeio bom. Estávamos bem dispostos. Ansiosos e nervosos (não sei porquê), mas felizes, definitivamente. Consegui capturar em fotografia um dos seus últimos sorrisos enquanto grávida. Foi dos mais bonitos que ela já deu, talvez por ter sido dos mais sentidos. Estávamos felizes, mais do que assustados. Íamos conhecer a nossa filha. O momento chegou.

 À chegada do Hospital, comecei por ter uma pequena batalha por ter trazido a mala da minha namorada. Disseram para eu descer e ir pô-la ao carro. Eu disse que teria de tirar a carta primeiro, e não sabia se dava tempo. Podia tentar, mas era arriscado.

 Ficámos num quarto com mais 4 senhoras. Uma delas já tinha feito o parto mas os enfermeiros fizeram de tudo para a manter ali, arranjando desculpas de diagnósticos, quando a razão era a falta de documentação da mãe que não era portuguesa. 

 Quanto a nós, tivemos pela primeira vez a experiência de um CTG sem fios, ideal para passeios e interrails. 

 Existiam algumas contracções, mas não eram significativas. Uma ou outra maior que provocava picos divertidos nos gráficos mas tudo muito espaçado. A bebé estava a preparar-se para continuar a ver Netflix na barriga da mãe por mais uma semana, no mínimo. Não havia pressa. 

 Tínhamos chegado por volta das 08h30, e assim ficámos durante o que viria a ser um longo dia. Lá estava aquele relógio no ar. Agora não esperavamos por uma resposta de alguém para voltarmos ao dia a dia e continuarmos em frente; agora esperávamos pela nossa filha. 

As dores iam aumentando e o desconforto removia qualquer posição de estar. O sismógrafo reportava ocasionalmente uma montanha muito fina, que coencidia com as espadas que a minha namorada sentia pelo corpo. O único alívio foi dado por uma enfermeira que ofereceu uma bola de pilates ao qual a minha namorada se sentou e sentiu uma leveza de quem sobrevoa as nuvens, mas depressa aterrou quando chegou a médica que ordenou que a bola fosse removida por imediato.

 A minha namorada pedia alguma coisa para comer devido à fome, o que compreensívelmente não seria possível dada a cirurgia eminente. Mas se existe algo que intimida neste mundo é o pedido de uma mulher grávida, e as auxiliares não tiveram outra hipótese se não trazer, pelo menos, uma pequena gelatina de ananás. A cor, o cheiro e, alegadamente, o sabor, era de urina. Às vezes uma pessoa confunde os frascos, portanto não me surpreenderia. Fosse o que fosse, a minha namorada não conseguiu comer. Tinha fome, mas o desconforto apoderava-se de qualquer sentimento que se manifestasse, dando apenas permissão para a sensação de dor entrar, mas era uma entrada exclusiva no Lux Hormonal. Havia fome, mas seria realmente fome? Aquele corpo tentava organizar uma fila enorme de hormonas que decidiram ir fazer o cartão de cidadão no mesmo dia. Estava uma confusão e haviam hormonas de gravata a reclamarem por trabalharem mais do que as outras.

 A minha namorada insistiu que eu fosse almoçar alguma coisa ao bar do hospital. Apesar de eu não ter apetite e não querer afastar-me, apercebi-me que ela estava grávida por isso não havia manobra para me impor. Lá fui eu comer um rissol de leitão de massa tenra, por sinal, saboroso. Apanhei um pouco de ar e de Sol, mas não tardei em voltar ao quarto.

 Existiram momentos de silêncio. Momentos em que ela fazia um pouco de Sudoku para se distrair. O mesmo Sudoku que comprámos no Aeroporto quando partimos para a Dinamarca.

 As dores iam interrompendo, contudo. Algumas talvez já nem as sentisse pelo hábito, mas outras insistiam em chamar-lhe à atenção. E não havendo forma de estar, o estar era agora em pé. E dançámos. Foi a nossa melhor dança em toda a nossa vida. Sempre recordei este momento como a dança no V for Vendetta: uma revolução sem dança é uma revolução que não vale a pena ter. As músicas foram cantadas por nós, mas por alguma razão decidimos escolher apenas as músicas que não sabiamos as letras de cor. 

 Cantámos sobre os peitos da cabritinha quando as dores eram como os risos: desesperantes.

 Cantámos sobre como a Escuridão era a nossa Velha Amiga, para quando ela pedia uma letra que eu soubesse mais do que três linhas. 

 Cantámos sobre todas as Ondas que se Quebram, em versão acústica. Sobre todas as ondas que quando quebram, dizem à próxima onda que virá mais uma a seguir, e sobre como nós devíamos persegui-las, juntos. Cada uma. Porque esta era a nossa música. 

 O cansaço apoderava-se dela. O que quer que seja que lhe tenham introduzido para provocar a indução, já acordava o útero. Não sei o que usaram, mas assumo que tenha sido uma fatura de um parto no privado. Foram várias as tomas de ben-u-ron ao longo do dia para apaziguar, mas nada fazia efeito.

 Até que as dores foram aumentando. 

 E aumentando.

 E aumentaram uma terceira vez.

 Escrevo agora como a minha namorada sofreu dores horríveis. Contorcia-se e suava de agonia e desespero. A epidoral não teve qualquer efeito dormente. Claro que não teve efeito. Depois de tudo o que passámos, depois de todo o stress que ela atravessou, porque razão a epidoral faria efeito?

 Apenas sofreu. E sofreu tanto que com os gritos apareceram médicos e enfermeiros. Não contei quantos, mas preencheram o meu campo de visão com batas, deixando a minha namorada no meio do meu foco enquanto o seu redor era um vulto branco. Eu senti-me a afastar dela lentamente, como se não tivesse sido necessário os enfermeiros dizerem para eu me afastar. Eu já estava a afastar-me, sem saber. Foi tudo tão rápido, mas em câmara lenta. Eu apercebi-me que não podia fazer nada. A minha namorada não morreu, mas deixou de existir durante tanta dor. Não era ela. Deixou de o ser. Não era mais uma pessoa. Era apenas dor. Eu não podia fazer nada porque ela não me iria sentir ali, muito menos ouvir.

 Fui então afastado por uma enfermeira enquanto me apercebia que as águas já tinham rebentado. E saí para o corredor.

 Lá fora, estava eu e um outro rapaz, talvez da mesma idade ou um pouco mais velho. Não falámos. E ali estávamos nós, dois idiotas sem saber o que fazer enquanto a mulher tem o trabalho todo. Ele andava sobre um oito desenhado pela cabeça, e eu estava estático.

 Fiquei em pé, em frente da porta de segurança. Passei por ela várias vezes naquele dia, para ir ao bar e para ir à casa-de-banho. Mas impressionou-me como a porta estava agora fisicamente mais alta do que me lembrava. Parecia ter o dobro do meu tamanho, uma altura estúpida. E este momento foi calmamente enervante para mim. 

 Sempre que eu fiz teatro, ou subi ao palco por algum motivo, eu nunca o quis fazer. Os ensaios eram extensos e diários. Eu estava mais que preparado. Mas, chegada a altura, eu não queria passar as cortinas e ser observado pelo público. Quando ouvia as pessoas a sentarem-se, eu só queria desistir. Sabia que passei pelo mesmo na noite anterior e correu bem. Sabia que depois de pisar o palco eu ficaria confortável e, por mim, lá ficava. E raras eram as noites em que eu não pensava que tinha sido a melhor das noites. Mas, ainda assim, ali estava eu a não querer passar por aquilo. Não era medo de falhar, era só falta de vontade de querer fazer o que fosse, muito em culpa da ansiedade de sentir o tempo a acabar para ser chamado.

 Mas não desta vez.

 Foi a única vez em que eu aguardava pela passagem do tempo para ser chamado a passar as cortinas e pisar o palco. A estrela não seria eu, nem seria sobre mim. Mas tinha o meu papel secundário a desempenhar. E queria mais do que tudo poder fazê-lo.

 Esta barreira que me separava da minha família teve muito peso, simétrico à altura. Atravessar aquele muro era ser Pai, e deixar o que eu era até ali para trás.

 Eu sempre quis ser Pai. Sempre. Mas não sabia se teria coragem para estar presente no parto. Não era de todo algo que fizesse sentido com a minha imagem de tanso. Eu sou acanhado e sensível. Como poderia ter força para estar presente nesta experiência sem desmaiar? Ouvi tantas histórias de pessoas fortes que não o aguentaram. Eu já tinha visto muitos vídeos de partos no Liceu. Partos no hospital, partos no sofá, partos no banho, partos de frente, partos de trás, era sagrado que aquelas semanas não iríamos estudar mais matéria se não ver bebés a aparecer. Claro que é diferente estar a assistir a um parto ao vivo. Primeiro, porque é ao vivo; não são gritos em diferido, são reais e penetram mais do que os ouvidos. Mas é surreal quando é alguém que nós conhecemos e amamos. O perigo é… mais realista. No entanto, eu nunca pus eu causa que não iria assistir ao parto. Porque não era sobre mim. Era sobre a minha mulher. Ela precisava de mim e ela não teria escolha se não passar por aquelas dores infinitas e eu não tinha o direito de não estar presente. Eu sempre soube que iria estar presente. Só não tinha confiança para cortar o cordão umbilical, era a única ideia que me fazia impressão.

 E assim, abriram a porta, e eu atravessei aquela muralha.

 A minha namorada já estava deitada e a iniciar o processo. Ela olhou-me a entrar na sala, mas sem me ver. Fiquei junto ao seu ombro direito e as minhas mãos seguraram a sua. Eu estava calmo, e não permiti que as minhas mãos tremessem. Não podia passar isso, mas não disfarcei nada. Eu estava a ser o que precisava ser ali. E estava a fazer o que mais ninguém com formação em medicina conseguia. O meu papel ali era assegurar que não estava sozinha. Ela ia passar por isto, mas comigo ao lado, sempre.

 A minha namorada estava de volta. As dores não a queriam deixar, mas ela estava de volta. Reconheci-a. Reconheci que tudo o que lhe correu mal na vida, estava ali. Reconheci que este era o momento do nascimento, mas também de um teste derradeiro em que ela era mais uma vez, entre tantas, desafiada a ultrapassar dificuldades tremendas. Ali estava ela a passar por dores que eu só poderei descrever com o que vi, nunca com o que senti.

 A vida esteve sempre contra a minha namorada, desde criança. Desde que alguém tinha de tomar conta dela e não o fez. Desde que ela teve de tomar conta de si e dos outros. Desde que só tomou conta dos outros por não poder tomar conta dela. Desde que tomou conta de tudo sem ouvir um perdão ou um agradecimento. Desde que tomou conta dos outros e só ouviu desprezo. E agora, tinha a derradeira prova como ser humano em dar vida a alguém. Passar por dores para que outro ser possa ter o direito de crescer, descobrir e sonhar. Deixar que outro ser aprenda o que é amar e ser amado. Dar uma parte de si. Uma metade que lhe pedia toda a força que tivesse. 

 Ouve momentos de desistência por já não existir mais para dar. Era impossível. Doía, e a força colossal já não chegava. Já deu tanto até ali, já era demais. Ela pediu para desistir, dizendo que não conseguia. 

 Foi recuperando o fôlego.

 Voltou a tentar.

 E sozinha, encontrou dentro de si uma força infinita.

 Teve a ajuda apenas de si própria. Por tudo o que lutou na sua vida, conseguiu a coragem para dar mais e atravessar o impossível.
 Sozinha, continuou e deu mais do que tinha.

 Sozinha, lutou contra tudo o que lhe fez frente.

 Sozinha, deu toda uma vida.





 Sozinha, ela conseguiu dar a este mundo a Emília.


06 February 2019

Episódio 15 | Operador, Operador | Ou: Lá e de Volta outra Vez mais uma Vez





A minha formação começa com a apresentação de cada um. Eu disse que eu era o Bruno, e eles no geral pareceram aceitar que eu era quem dizia ser. Falámos sobre nós, nomeadamente sobre os estudos e sobre os sonhos que tivemos para termos a certeza que ninguém queria realmente estar ali. Continuamos com uma caminhada pelos pontos de interesse no edifício. Haviam mais pontos do que interesse mas gostei do que vi. O maior factor de contentamento era a quantidade de luz natural que melhorou significativamente a experiência de trabalhar naquele espaço. A formação decorre durante, sensivelmente, duas semanas, onde ficamos a conhecer um volume intimidante de informação a ter em conta, bem como o funcionamento de todo o software a ser utilizado. Apanhei bem o funcionamento e senti-me confiante.
 Durante a formação com colegas, deu para perceber um pouco da realidade de lidar com um cliente (sendo a minha primeira experiência no género) bem como algumas dificuldades a atravessar. Acabei por começar a atender mais cedo do que o esperado quando uma colega precisa de ir à casa de banho e deixa-me sob controlo total. O dia era parado, a chance de calhar uma chamada enquanto ela não regressava era pequena.

Mas foi a suficiente.

O telefone tocou e o meu primeiro cliente era estrangeiro. Tive de pôr em prática os conhecimentos recém adquiridos, e em inglês. Felizmente, não era difícil e safei-me bem. Continuei a atender e perceber as minhas dificuldades próprias, sendo a maior dificuldade entender que dados pedir consoante a situação, assim como a ordem para os pedir para que não soasse a uma conversa robótica como se estivesse a ler um texto.

 No final, o dia correu bem mas não me senti confiante. Com a ajuda da minha colega formadora esbocei um esquema no comboio para melhorar a minha qualidade de chamada e pus em prática no dia seguinte, junto de outra colega, a minha nova estratégia. A dificuldade era o que fazer com os dados do cliente e, mais importante, quais os dados a considerar importantes. São muitos, mas na prática há nos que interessam mais para a conversa fluir. A estratégia resultou e melhorei significativamente. Como recompensa, tive a oportunidade de apanhar uma chamada em que depois de despedir-me da cliente, ouço o autoclismo. Este fenómeno é estranhamente comum, fazendo com que eu seja da opinião que o facto de o cliente não ter desligado a chamada antes do autoclismo serve de feedback sobre a qualidade da resolução do operador.

Os dias iam passando. O que faz parte do conceito de tempo, seria estranho se vivesse sempre no mesmo dia. Saía de casa dos meus pais, apanhava o comboio, trabalhava, apanhava o comboio, voltava para casa dos meus pais e, mais importante, para as minhas mulheres. A minha namorada distraía-se em casa recriando as receitas incríveis da minha avó Anita. Rissóis, mousse, torta de cenoura. Apenas participei no esparregado para o meu pai, o que nos correu muito bem. Provavelmente o segundo melhor esparregado que ele já comeu, não sendo o melhor por não ser feito pela mãe, o que dá aquele gosto que não se compra em nenhum hypermercado.




A minha namorada fazia o almoço para eu levar para o dia seguinte e comer no trabalho, sempre com a preocupação de serem refeições rápidas e práticas, muito por culpa de eu ser esquisito e não gostar de almoçar no trabalho.

O ponto alto eram as noites. Ficávamos aconchegados na cama e eu tinha o prazer de sentir uma bolinha a andar na barriga da minha namorada. Parecia um joelho, talvez fosse um cotovelo, se calhar um pé. O que era, eu acompanhava com a mão para onde fosse. Às vezes só para chatear a minha filha de propósito e às vezes só para brincar com ela, como se fosse a primeira caminhada juntos. 

Obviamente, também encostei a cabeça várias vezes para a ouvir. O som era igual a um mar dentro de um copo de vidro. Com sorte, ouvia alguns movimentos e uma vez até cheguei a ouvir a Stairway to Heaven. Tão pequenina, mas já com bom gosto. E sabíamos que estava bem desenvolvida quando me espeta um pontapé na cara por eu estar a ouvir o que andava a fazer. Foi a minha primeira violência doméstica. Aquela criança definitivamente irá longe.

Uma noite em que eu fui um Pai de família deu-se por volta da meia noite em que os vizinhos de cima ainda estavam a ouvir música em grande volume. A minha mãe queixava-se e a minha namorada não conseguia descansar. A música era, de facto, péssima e a pior ofensa era estar alta. Música péssima e alta são combinações que não permito.

Levantei-me, pus as calças a correr e saí disparado de casa para o andar de cima. A minha mãe foi à porta preocupada, afinal, só tinha visto a minha agressividade em momentos familiares ternurentos. Isto era novo.

Bati à porta e falei com alguém que nunca tinha visto e não voltei a ver. Apenas referi "Se faz favor, é meia noite." Mas foi das frases em que disse com maior convicção. Naquele momento, não quis saber se teria de falar com uma ou vinte ou trinta pessoas (creio que moram lá cerca de 35 pessoas. São muitos quartos naquele andar). Não foi necessário discutir ou referir a minha mulher grávida. A forma como falei, disse tudo, e mais do que a minha entoação foi a performance da minha cara que vendeu que eu não estava impressionado com a atitude. Voltei para casa, voltei para a cama, voltei para a minha família e tivemos o merecido descanso. Estava demasiado chateado para saborear o orgulho de, por uma vez, ter estado à altura, especialmente por ter ultrapassado o meu pai e, sem dúvida, ter reagido conforme a vontade de todo o prédio. A música era realmente uma merda. Mas a minha namorada apreciou o meu comportamento e um lado meu que raramente via.

Com o passar dos dias, veio a realidade do trabalho. Ao fim de um mês, o stress apoderou-se de mim e eu queria desistir. Não o faria, mas sabia que não era trabalho para mim e que não ficaria por muitos mais meses. Tinha pesadelos com o software do trabalho. Aqueles tons laranjas e aquele som infernal da chamada a cair fazia-me suar na cama. Até aqui eu estava habituado a ter pesadelos com a Samara (não confundam com a Simara mas também é válido), nunca pensei que seria possível ter medo de programas informáticos. Existe aqui potencial para desenvolver humor em torno do Internet Explorer, mas deixo para vocês.

Recordo-me, no entanto, de um novo sentimento. O jantar era em família e as personalidades mais velhas alimentavam-me com a defesa de eu precisar de comer por ter vindo do trabalho. Eu agora era alguém que vinha cansado do trabalho. Não era trabalho que cansasse, mas eu tinha que estar cansado porque era um homem que trabalhava, logo, era desculpado de qualquer tarefa em casa. Absurdo, principalmente por eu não estar a trabalhar com cimento. Não desvalorizando o cansaço mental que se apoderou durante muito tempo mas não era um trabalho que justificasse eu ter de comer mais por isso. Ainda assim, havia um sentimento de orgulho da minha parte. Tinha uma rotina e tinha uma responsabilidade pra com a minha família que eu estava a cumprir. Estava contente comigo. Só não estava feliz por o emprego ser horrível.

A felicidade também nunca poderia apoderar-se de mim. Por mais conforto que eu e a minha esposa procurassemos, era virtual. Não era o nosso ninho, nem era o berço da nossa filha. Não era assim que devíamos estar aos 7 meses de gravidez. Nem a minha namorada podia descansar à vontade, por mais que se fechasse no quarto havia sempre ruído da minha família e das confusões com os gatos. Havia sempre alguém a precisar dela e havia sempre alguém a querer vê-la por ela lá estar. A casa era cada vez mais pequena e o sufoco maior. E prevíamos um futuro pior. O facto de estarmos a viver junto da minha família significava que além de não haver sossego para as rotinas da bebé, também seria uma porta aberta para visitas de estudo. Todos os dias, a todas as horas, teríamos que mostrar a criança. Não havia como contornar, mesmo que discutissemos estaríamos a criar mau ambiente e mau humor sem necessidade.

Até que ficámos a saber que os nossos vizinhos cegos voltaram para casa. Afinal, se era para estarem fechados numa casa, mais valia ser na própria. Não saiam à rua por serem trajectos desconhecidos, por isso era mais do que sensato estarem onde existia um confortável reconhecimento. 
E deste modo recebemos o último incentivo que nos faltava. Regressámos a casa. Corremos o risco, mas tínhamos uma bebé a caminho e precisávamos de um lar para a recebermos confortavelmente. Não havia mais varanda para cair e a passagem tinha sido fortificada. Não deixava de existir uma contagem decrescente para o prédio em si, mas ganhámos mais tempo crucial.

Qualquer coisa tinhamos aquelas escadas

Refizemos a cama da nossa filha e voltámos a guardar as suas roupas. Preparámos a casa melhor do que nunca e, agora em repouso, estávamos finalmente preparados.

Tanto quanto se pode estar preparado.

No fim da minha formação, assinei o contrato que me comprometia a jurar pela bandeira. Assim que o fiz, pedi para falar pessoalmente com o Apoio Administrativo ao qual anunciei que: "ah, é verdade, antes que me esqueça, vou ser pai. Daqui a um mês ou mês e meio, ou assim". 

A minha notícia correu bem, mas era obviamente implícito que, tudo bem, tens estes 6 meses, mas terás de provar mais que os outros colegas da formação que vales a pena. Afinal, eu ia começar já com a notícia que estaria fora por algum tempo. Felizmente, acabei por conseguir mostrar que não era horrível. Mas havia muito trabalho para melhorar.

E assim, o tempo vai passando. Até chegarmos ao derradeiro mês. O nono. Deixei a fase do 'podia ter saído antes, mas ainda podia sair depois'. Agora, era certo: será uma questão de sair quando bem lhe apetecer, e não tarda, vai-lhe apetecer. Todos os dias, eram potencialmente 'o' dia.

No entanto, a nossa filha mostrou sinais de inteligência. Talvez por culpa dos poucos momentos em que escutou o noticiário, mas ela escolheu não sair. Estava bem lá dentro. Estava mais protegida, quentinha e com a mãe. Podia sair quando lhe apetecesse, por isso, não lhe apeteceu. Nunca temos vontade de sair da piscina e a razão é a barriga da nossa mãe. Às vezes porque ainda estamos a fazer render o dinheiro que pagámos para estar na piscina, mas isso não é relevante para a minha mensagem.

Recordo-me do nosso primeiro momento de aflição como pais. A minha namorada manda-me uma mensagem a dizer que não sente a bebé há muitas horas. Acabámos por passar a noite no hospital com o auxílio do CTG a assegurar-nos que a nossa filha estava connosco. Apenas teve um dia mais calmo com um batimento cardíaco mais lento. Nós próprios não reconheciamos aquele ritmo, não era o dela, e até termos uma resposta da médica, ficar a ouvir o coração da nossa filha foi uma experiência muito fria. Era reconfortante ouvir o coração a bater, mas a falta de resposta sobre o que se passava assustava-nos. E aguardámos de mão dada até sabermos que estava tudo bem com ela. Foi uma noite silenciosa até casa, mas mais quente do que quando saímos.

Aguardou-se mais uma semana extra até a ideia de programar a indução. Podia sair a qualquer altura, mas, de repente, passei a ter uma data fixa. A partir deste dia, seguramente serei Pai.

Uma das minhas supervisoras solicita-me, como habitual, para eu fazer horas extra na próxima segunda-feira. Ao que eu respondo: "Na segunda não posso, vou ser Pai". O que é uma boa desculpa para qualquer situação, uma que eu devia utilizar mais vezes. "Não vou poder, estarei ocupado a receber uma tremenda responsabilidade." Esta supervisora, ao qual vou chamar Supervisora ½, era das mais entusiasmadas com a novidade. Adorava que o mundo tivesse a existência do conceito de bebé, e foi pioneira na tese de o nosso [futuro] grupo de trabalho só fazer bebés bonitos. A verdade é que sempre que nasceu um novo número de contribuinte, comprovava-se. 

Quando informei que seria um futuro pai, questionei se havia problema de eu sair a correr para o parto. Ficou bastante claro que era retórico, eu faria isso, mas essencialmente pedi a benção para o acto. Mal sabia eu que seria ao contrário, eu acabaria por informar que não poderia comparecer neste dia por o fruto já estar maduro.

Nos últimos dias antes do parto, a minha namorada perdeu qualquer receio. Aquele bebé tinha de sair. Ela já não aguentava mais as dores e o desconforto. É bonito sentir o coração da filha, mas é desagradável sentir o nosso próprio coração na boca por ter sido empurrado com dois pés a esmagarem a caixa torácica. Aquele bebezinho conseguia ser muito bruto com a mãe. Mas mesmo com a azia, enjoos, azia, dores e falta de posição de estar, e azia, a minha namorada comenta ocasionalmente as saudades que sente da gravidez. Apesar do stress que passou, o processo de criação foi memorável. Os maus momentos serão sempre associados, mas a ternura por aquele ser é uma história inesquecível.

Certo dia, Portugal resolve ser campeão da Europa. Só para experimentar, para ver no que dá. Fosse noutro país e eu teria de especificar 'Campeão de Futebol', mas em Portugal não existem mais modalidades. Pessoalmente, não gosto de futebol, mas ver a Selecção agrada-me por sentir um país unido. Mesmo que una só para isto, mas é bom ver. Assisti ao golo do Éder e celebrei como toda a gente. No final do jogo, ocorreu-me que a minha filha viria a nascer numa época em que Portugal era campeão. Na verdade, 2016 foi um ano em que Portugal ganhou a maioria de medalhas e troféus. Em parte, graças ao esforço dos nossos desportistas, mas a razão principal foi o milagre do nascimento da minha filha que influenciou e não é possível refutarem isto.

Portugal celebrava e rejubilava a vitória. E a minha namorada aproveitou a situação para ser extremamente grávida: eu vou lá fora, eu vou para o meio da confusão, e este bebé vai querer sair!

Mas aquele bebé teimou em não querer sair. O caminhar, o barulho, as explosões coloridas no céu, as bebedeiras, nada. Aquele bebé não queria sair, ponto final.

Encontrámos o Engenheiro Pipas e, numa rara excepção, contámos o nome da nossa filha, até aqui um segredo deliciosamente guardado. Foi das poucas pessoas que não só simpatizou com o nome como considerou fantástico. E eu sei que sou o pai, mas ele teve razão. Foi de facto uma escolha brilhante.

Voltámos para casa campeões mas derrotados. 

Avisei uma última vez a minha mãe que não queria que ela esperasse pela minha resposta sobre o parto. Ela insistiu que não iria adormecer até eu lhe ligar, mas expliquei que o parto poderia ser complicado, poderia nem nascer naquele dia, e eu não estaria com a preocupação de avisar ninguém. Alertei, inclusive, que iria ter o telemóvel desligado.

E tive razão, o parto não foi naquele dia. Chegámos ao Hospital e fomos informados que estavam com muitas mulheres grávidas e que não sabiam o que fazer com o tamanho do rebanho. Aparentemente, aguentaram pelo resultado do jogo para não perderem nada e no dia seguinte punham então os ovos. 

Por isso, voltámos para casa com a minha namorada cada vez mais exausta com o tamanho da barriga. Já bem dizia António Variações: "é para amanhã o que pode nascer hoje".

E o nosso António tinha razão. Foi para amanhã.

Lembro-me de estarmos deitados a olhar para o tecto. Não me recordo do que falámos, mas estávamos em sintonia como casal. Amanhã, seriamos três, cá fora. Amanhã teríamos um montezinho de hemoglobina para carregarmos e amarmos. 

Amanhã, íamos ser pais.